A pintura que nunca morre

bernardo mosquera

Abre ao público amanhã, na Galeria Oscar Cruz, em São Paulo, a mostra “Sem título #1 – Experiências de Pós-morte”. Com curadoria de Bernardo Mosqueira, a exposição reúne 57 obras de 23 artistas cujos trabalhos se relacionam (ou podem ser relacionados), de alguma maneira, com a pintura. São artistas de vários estados brasileiros que utilizam a pintura como meio, método, matéria ou metáfora em seus processos criativos. A mostra é “propositalmente aparentemente paradaroxal”. E é o próprio curador – retratado acima, em grafite sobre mármore, por Matias Mesquita – quem a descreve: “Enquanto usa a pintura como pretexto curatorial, afirma a irrelevância das fronteiras técnicas para a arte contemporânea. São desenhos, aquarelas, nanquins, tecidos, instalações, fotografias, vídeos, máquinas, bebidas e, claro, pinturões (tinta sobre tela) que, juntos, formam a mais recente parcela de uma discussão que parece nunca findar: a morte da pintura”.

Gilberto de Abreu – Vamos falar sobre a morte da pintura no final… Reunir jovens artistas, brasileiros, novos nomes no circuito… quais são os principais desafios? outro dia me perguntaram se era mais fácil comprar obras de artistas brasileiros ou internacionais independentes. quando pensei sobre a tramitação de importação, quase desisti de responder… como se articulam os jovens artistas?

Bernardo MosqueiraNão sei se “desafio” é a palavra. Eu posso dizer o que é mais trabalhoso: pesquisar gente de tudo quanto é parte, artistas sem representação de um galerista em São Paulo, artistas que eu acredito que merecem uma maior visibilidade, reuni-los de uma maneira coerente e heterogênea (como conjunto) e fluida, rica e com multi-sentidos (como montagem). E, sempre, gerenciar necessidades, afetos e carencias de 23 artistas completamente diferentes. Mas é uma pratica dificil que faço, admito, com prazer demais.

Há um tempo atrás, conversando com uma turma de cinema, ouvi que alguns novos nomes – sobretudo do nordeste – têm uma narrativa mais contemplativa, um tempo próprio de contar uma história… Você enxerga alguma tendência vindo de alguma região do brasil? seja em suportes, temas, processos? Vendo a produção desses artistas, o que lhe tem chamado a atenção? encontra recorrências, diálogos entre desconhecidos, algo que mereça ser destacado?

Ah… vários. Claudia Herzs pinta sobre tapeçaria e Rodrigo Torres sobre foto, de maneira muito semelhante.. com poéticas diferentes, mas de modo semelhante. Tem trabalhos de práticas diferentes e efeitos semelhantes… Como Rodrigo Sassi e suas “pinturas infiltrorias” (que são infiltrações de tinta em retângulos de parede), em que ele consegue um efeito aquarelado semelhante aos de Dani Kohn. Ou a criação de ecossistemas fantásticos de Beatriz Chachamovitz (delicado e no nanquin) e Gilvan Nunes (óleo sobre tela, com muuuita cor e materia). E o mais mágico e importante de tudo – eu acredito – o modo como Tiago Rivaldo e Bruna Lobo levam a arte pro campo da vida. Retornando o vetor duchampiano.

Claudia Herzs (acima) e Gilvan Nunes (abaixo)


Essas proximidades se evidenciam na montagem?

Algumas sim. Claudia e Rodrigo, por exemplo. E Claudia e João Maciel também. Mas outras não, para que não fique tão óbvio. Eu não estou buscando proximidades visuais. Ou semelhanças. A “seleção” se deu por proximidades de posicionamento em relação à pratica da arte.

Quais seriam essas proximidades?

O descompromisso angustiante e libertador com o prosseguimento da história da arte. A pratica de pintura no pós-morte da história da arte, da arte, da pintura, etc. Pintar é uma forma de protesto? Uma resposta à afirmação de que a pintura morreu? O pintar por si não existe? claro que o pintar existe. como nao existiria? E o pintar pode ser forma de protesto, como pode ser forma de qualquer coisa. a pintura de speridiao é uma forma de protesto politico, por exemplo. mas acho que o descompromisso dessa geraçao é até mesmo com a afirmaçao de uma vida da pintura.

O que há de novo? Todo artista sempre se angustia, e dá prosseguimento à história da arte…

É. ou não. talvez as historias (com H maiusculo e a da arte) tenham morrido mesmo. Pois é… O que a gente pode esperar da exposição? 23 artistas interessantes, 57 trabalhos bons, e muita coisa nao vista. E muitos trabalhos que entendem a irrelevância das fronteiras técnicas na arte contemporânea.

Legal. alguma atividade complementar? mesa-redonda, catálogo?

Não… Sem catálogo, mesa, nada nada.

Esse assunto (da morte da pintura) não morre nunca… E é tudo tão contaminado hoje em dia, em termos de técnica e suportes, que o melhor é seguir produzindo livremente. não acha?

É disso que falamos. Esse é um dos dois paradoxos dessa exposição. É uma mostra que critica o fetiche de pintura e ao mesmo tempo uma exposição que reúne e classifica um bando de coisa como pintura. Fala da irrelevância das fronteiras técnicas (e do discursar sobre esta irrelevância) ao mesmo tempo em que, ironicamente, se declara uma exposição de/sobre pintura. Corrigindo o primeiro paradoxo: é uma exposição que critica o fetiche à pintura e ao mesmo tempo é uma exposiçao que reúne e classifica um bando de coisa como pintura, declarando, sem vergonha, um tesão pessoal do Bernardo em pintura.

Dito isso, vamos ao post, que sai amanhã.

Conta mais, conta mais, pergunta mais, pede mais…

Vamos complementar o começo então… Com a sorte da internet temos podido viajar o mundo sem levantar da cadeira. Acredita que a arte esteja melhor articulada tendo a internet como ferramenta de trabalho?

Super. Todos os artistas dessa exposição estão no Facebook, incluindo Beatriz Chachamovitz (abaixo). Mas que fique claro que a curadoria não foi feita pelo Facebook.

Você tem lido o supergiba?

Oh yeah.

E o que tem achado? Onde pode ser diferente?

Eu ate tenho curtido aqui. Curto muito entrevistas experimentais e curto muito espaços para colaboradores convidados. Posso ser sincero?

Sim, se te abri a oportunidade de comentar… É isso o que espero de você mesmo.

Sinto falta de porrada.

Que tipo de porrada? Crítica às insitituições, a determinados curadores, a políticas culturais?

Sim sim. Às vezes, as coisas se aprioximam demais do muito jornalistico brasileiro. Do release, sabe? Mas eu entendo super porque deve ser trabalho pra caraaalho.

Sim, sei… Sou jornalista e não raro publico releases… Mas também toco em temas polêmicos. Acontece que em ambos os casos os leitores não se expressam… É difícil levantar algum tema que realmente encontre ressonância. seríamos todos muito contemplativos?

Ah! que nada!

Vc, por exemplo, nunca comentou no blog. 

É porque você tem de fazer textos com afeto! Que afetem, que causem ódio e paixão. Meter o pau, lustrar o candelabro.

Seria o mesmo que pedir a um pintor que pintasse algo do tamanho de seu sofá, pra por em cima…

Ah, eu não estou pedindo. Você perguntou minha opiniao e reclamou da falta de comentários. E perguntou se éramos todos contemplativos… Eu disse que somos contemplativos com texto de contemplar. Texto de jornal.

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