Aratanha: um clã dedicado à fotografia

A abertura da exposição multimídia 6x ALBANO, no dia 26 de outubro, sexta-feira, no Espaço Cultural dos Correios de Juiz de Fora, MG, traz de volta uma intrigante questão. É possível herdar no DNA o talento para as artes visuais? A julgar pelo trabalho dos seis fotógrafos da “linhagem” de José Francisco da Silva Albano – o Barão de Aratanha, famoso no Ceará, a resposta é um sonoro sim.

Talvez tenha sido a luz de Fortaleza, mesclada ao sol escaldante de Copacabana. Pode ter sido as velas do Mucuripe, da Caponga ou da Redonda. Ou as traineiras de Mangaratiba, Marambaia ou Ilha Grande. Mas o certo foi que o sangue de duas gerações do barão gerou um olhar telúrico e sofisticado, artístico e jornalístico, técnico e espontâneo da fotografia.

6x ALBANO reúne seis premiados fotógrafos – os nascidos em Fortaleza, os irmãos José e Maurício, e seu filho Ciro; e os nascidos no Rio de Janeiro, o irmãos Mario (abaixo), Ricardo e Fernando. Todos primos, uns Albano e outros Albano de Aratanha. Cada qual com sua visão do Brasil e do mundo. Todos viajados, olhos expostos a todas as luzes.

Esse encontro de olhares passou pelo Ceará, chega a Minas Gerais e, no próximo ano, pousa em Miami. Um detalhe curioso: no decorrer entre uma exposição e outra, a curadora Jeanne Duarte esbarrou, por acaso, na quinta geração dos Albano, com mais fotógrafos: Rita Albano, diretora de fotografia em cinema, Leonardo Lepsch, que vive em Londres e é fotógrafo profissional na Europa e Africa, e Camilla Albano, que vive em Goiás. Foi assim que, para Juiz de Fora, 6x ALBANO se transformou num 6xAlbano+2.

“Criei uma representação fotográfica do DNA dessa família e de sua cultura, mas com a minha leitura. Desloquei as fotos do significado original e busquei a ambiguidade que existe em cada uma delas. Quando agrupadas por temas, cores ou formas, as fotos contam uma nova história”, conta Jeanne.

400 registros em loops sequenciais

6x ALBANO mescla o movimento do vídeo ao instante parado, eternizado, da fotografia. Um software utilizado por VJs possibilita a junção de fotos e microvídeos e em exposição simultânea. Mais de 400 imagens são projetadas em grande formato e alta definição, numa parede que recebe os 3 “loops” sequenciais, com cerca de 9 minutos.

Assim, todos os Albanos estarão juntos no mesmo ambiente e o público vai poder procurar, ele mesmo, o que une e o que diferencia os olhares de cada fotógrafo. Ao final das exibições contínuas, a curadora “devolve” aos fotógrafos suas autorias, e o público pode ver uma mostra também projetada de 60 fotos de cada artista, como numa concisa retrospectiva do trabalho.

“Minha intenção é a de que o público faça a sua própria leitura, a partir de seus signos e símbolos, interagindo com as imagens”, conclui Jeanne Duarte.

Os fotógrafos da família

Ricardo De Aratanha tem três Prêmios Nikon e três Pulitzer Prize, como fotógrafo do célebre jornal norte-americano Los Angeles Times. Membro do Image Bank, suas fotos saíram em publicações no mundo inteiro. Participou de diversos livros, como One Day in the Life of America e o One Day in the Life of Italy. Essa é sua primeira exposição no Brasil. Já fotografou em todos os continentes, e hoje é um dos editores de fotografia do LA Times, onde começa também a filmar com as novas câmeras digitais, para a edição online.

As imagens de José Albano (ao lado) são referência para uma geração de fotógrafos não só cearenses, mas de todo país. Formado em Letras no Brasil e em Fotografia na Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, viajou pela América do Norte e Europa, realizando vários ensaios. Trabalhou também com fotojornalismo e publicidade. Seus retratos, especialmente os de crianças indígenas, são festejados pela crítica e publicados em seu livro de 40 anos de fotografia autoral. Suas andanças de moto pelo país afora acabam de ser registradas em seu Manual do Viajante Solitário.

Mario de Aratanha fotografa desde seus tempos de colégio, e já expôs ao lado de nomes como Evandro Teixeira e Octales Gonzales. Como jornalista, aliou sua câmera às reportagens para o Jornal do Brasil e The Associated Press. Como artista gráfico, exibiu obras no Salão Nacional de Arte Moderna e no Salão JB. Por muitos anos dedicou-se à produção musical, com sua gravadora Kuarup, mas voltou à fotografia recentemente, abraçando a foto em movimento. Em sua produtora Cineviola Filmes dirigiu mais de 20 DVDs.

Mauricio Albano é fotógrafo há 40 anos e já ganhou inúmeros e importantes prêmios. As bolsas do Capes e da Fundação Fullbrigth, em 1995, lhe permitiu estudar durante dois anos na Philadelphia College of Art (EUA). Possui trabalhos publicadas em livros, jornais, revistas e até em 200 cartões telefônicos de empresa brasileira. Dedica-se especialmente a registrar imagens do Ceará, sendo autor dos livros Fauna e Flora do Maciço de Baturité e Visões: Rachel de Queiroz.

Fernando de Aratanha é o caçula dos Albano de Aratanha, e também fez sua carreira nos Estados Unidos. Baseado na Califórnia, especializou-se em arquitetura, com trabalhos publicados nas principais revistas americanas e internacionais. Um de seus clientes é o cineasta Clint Eastwood. Recentemente, apaixonou-se por uma fotógrafa brasileira e hoje mora em São Paulo, operando seu estúdio próprio e realizando fotos para clientes daqui e de lá.

Entre os clicados estão Juliane Moore e Roberto Carlos.Ciro Albano não dissocia seu mérito de ornitólogo da atividade de fotógrafo. Com audição e visão privilegiadas, reconhece as espécies cearenses como nenhum outro, empregando este talento na conservação das aves ameaçadas de extinção. Entre suas conquistas, destaca-se o prêmio internacional concedido pelo Programa de Conservação da British Petroleum, e dez vezes premiado nas 5 edições do Concurso Avistar do Banco Itaú. Ciro está prestes a fotografar sua milésima ave!

Barão de Aratanha

Muitos conhecem apenas como nome de uma rua famosa no centro de Fortaleza. Mas o homem de título nobre foi uma figura bastante importante na cidade no século XIX. Passou a ser o “Barão de Aratanha” em 1887 por decreto imperial, nome este que se refere à Serra de Aratanha (ara= jandaia; tanha= bico), da qual o barão era herdeiro de terras.

Militar, cuja patente era de Coronel da Guarda Nacional, foi comerciante rico. Tinha um armazém em Fortaleza, a “Loja do Povo” . Católico, deixou um legado de caridade. Foi considerado um dos mais zelosos protetores do tradicional Colégio da Imaculada Conceição e da Santa Casa de Misericórdia, ambos de Fortaleza.

O Barão é onde tudo começou. Teve dois filhos, os quais, por sua vez, tiveram outros três, gerando entre eles os fotógrafos José Albano e Maurício Albano, bisnetos. Já da quarta geração, nasceram os trinetos e também fotógrafos Mario, Ricardo, Fernando de Aratanha e Ciro Albano. E por continuar a saga, as tetranetas Camilla Albano e Rita Albano também vivem da fotografia.

Além de deixar fotógrafos de herança, pesquisadores relatam que um filho adotivo seu foi quem inventou a cajuína. Não se sabe ao certo se isso é verdade. O fato é que seu legado está mais presente do que nunca na exposição 6x ALBANO, onde cada fotógrafo carrega na genética o amor pelo que faz e onde a natureza está sempre presente, como no modo de vida ecologicamente que o José Albano optou por levar, ou na contribuição inestimável dos registros e preservação de aves raras através das lentes de Ciro Albano.

About the author

Gilberto de Abreu é jornalista, pós-graduado em História da Arte Moderna e Contemporânea e faz Aprofundamento em Curadoria na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. É curador associado na plataforma franco-brasileira ArtMaZone.

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