Christello, a sístole e a diástole

Luis Christello

Aberta à visitação desde o último dia 3 no Consulado Geral da Argentina no Rio de Janeiro, na Galeria Antonio Berni, em Botafogo, a coletiva Conexiones/Conexões despede-se dos cariocas esta semana, para depois cumprir nova temporada, em Buenos Aires. A mostra, composta de trabalhos – desenhos, esculturas, gravuras e instalações – de brasileiros como Augusto Herkenhoff, Carlos Krauz e Luis Christello, e portenhos como Nestor Goyanes, Teresa Stengel e Yong Cho Wha-Ari.

Confira o áudio da exposição.

Para Luis Christello (alto), mais do que enaltecer a reunião entre artistas de diferentes nacionalidades, o que se buscou evidenciar foi algo além da circunstância geopolítica. “É a afirmação de que a arte é um território livre, e cada artista um país”. Confira a seguir uma entrevista com o artista.

Gilberto de Abreu – Fale um pouco sobre Manguetronix, esse enorme desenho digital, e sobre o papel da computação no seu trabalho.

Luis Christello - Manguetronix é mais do que um desenho digital, é um desenho que transbordou as duas dimensões e virou – para não usar a palavra “instalação”- um acontecimento espacial. É a minha resposta à exuberância ostensiva da natureza tropical do Rio de Janeiro, cidade que decidi me instalar depois de muitos anos na Europa. É uma resposta quase “impressionista”, pois se trata de devolver impressões registradas à minha maneira; é a minha tentativa de imitar a natureza no que ela causa de “espanto”, não no que ela tem de natural.

O “tronix” em manguetronix vem do “tronics”, de eletronics. A computação tem sido a minha mídia,  a interface entre vários procedimentos. O computador tem sido o meu atelier predileto. É lá que tenho produzido tudo, desde pequenos desenhos a desenhos imensos como o que está na fachada principal do shopping Rio Sul. Um desenho digital sobre o Rio de Janeiro que mede 56 metros por 12 metros e meio, o que dá uma obra de 700 metros quadrados, totalmente concebida e desenvolvida dentro do computador!

Alguns trabalhos são compostos também de objetos, que evidenciam a mão do artista, e uma intenção tridimensional. Quando começou a pensar sobre isso?

Alguns filtros digitais que utilizo – a minha paleta eletrônica – simulam relevos, materialidades. Atuam no limite da espacialidade ou então são, de fato, virtualmente espaciais, com recursos de 3D. Pittura é cosa mentale, disse Leonardo da Vinci. Tudo começa na mente, e como o cursor não anda sozinho, costumo dizer que a informação entra pelo olho, é elaborada na mente, desce para a mão, passando antes pelo coração. A mão é executora de ordens que vem de um pensamento/sentimento maior sobre as coisas.

Qual é o norte da sua trajetória como artista? Onde espera chegar?

A trajetória de um artista é o seu percurso no tempo.  O sentido disso é impregnar cada oportunidade de expressão com o máximo de verdades próprias e novas perguntas. Seja estabelecendo um diálogo, ou conseguindo bons ouvintes para o monólogo. Não tenho claro onde posso chegar, não tenho uma rota matemática para uma determinada direção, mas sei onde não vou chegar se não aproveitar cada oportunidade como uma chance única de dar não só mais um passo, mas um passo consistente. “Conexiones” para mim, representou alguns passos firmes no sentido do aprimoramento do meu vocabulário plástico e no domínio de novas possibilidades expressivas. Eu não espero chegar… eu vou chegando.

Encontre três ou quatro “tags” que definam a sua arte.

É difícil resumir sem cair no risco de minimizar… Mesmo  que seja para dar pistas para o entendimento de uma obra ou de um percurso… Mesmo porque a linguagem é móvel. Não pretendo ficar preso – nem prender ninguém – a uma definição. Em todo caso, detectei no meu modo expressão dois movimentos: um de fora para dentro, quando retrato o que está fora, tentando não interferir criativamente, tentando não “inventar”, e outro de dentro para fora, onde administro um fluxo inconsciente. São como os movimentos do sangue no coração: sístole e diástole. No caso de Manguetronix, é uma fase sístole: coisas expelidas, quase abstratas, mas que parecem reais graças ao toque eletrônico.
Quer ver um termo que define isso e que eu nunca ouvi antes? Todo mundo sabe o que é o Hiper-Realismo, mas acho que ninguém ouviu falar em Hiper-Abstracionismo. Pode procurar no google! Acho que o que eu estou fazendo no momento é isso. Hiper-abstracionismo (risos).Como definiria o seu trabalho?


Quando foi a última vez que sentiu-se desafiado?

Os trabalhos nascem à medida que você está preparado para fazê-los. Cada nova obra é um pré requisito para o próximo.Em alguns casos, no processo de concepção você tem a antevisão de que este próximo trabalho vai ser diferente, porque tem por exemplo, um espaço arquitetônico para se expandir. Que vai levar determinado tempo para ser feito somando novos materiais etc. O desafio que o trabalho impõe ou pede é um desafio prazeroso. O que faz com que um desafio seja dolorido é um prazo apertado para execução… Ou elementos que podem possam vir a prejudicar esse “parto”, o nascimento do trabalho com todos os recursos que ele pede. Manguetronix foi um bom desafio pois para a sua execução foi necessário o envolvimento de terceiros. Foram necessárias 6 pessoas (técnicos) para montá-lo.

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