Conexões: Teresa Stengel

teresa STENGEL

Teresa Stengel desembarcou no Brasil há 15 anos. Veio de vez, trazendo na bagagem sonhos, incertezas e a esperança de uma vida menos dura. Com a Argentina em crise, conseguiu autorização do governo para exilar-se em nosso país. A primeira parada se deu em São Paulo, onde viveu os primeiros cinco anos de adaptação. “Mas quando pisei no Rio não tive dúvidas: ‘é aqui que quero morar e trabalhar pelo resto da vida, pensei’ “.

Hoje, mãe de três filhos, todos eles brasileiros, Teresa Stengel orgulha-se pela escolha. “Me fiz carioca”.

Plenamente adaptada à vida no Rio de Janeiro, a gravadora vive uma nova fase de experimentação, dessa vez no campo criativo. O resultado podemos ver nos trabalhos que apresenta na recém-inaugurada coletiva “Conexões“, em cartaz na Galeria Antonio Berni, do Consulado Geral da Argentina, em Botafogo.

Além da bidimensionalidade - ”Glaciares”, o mais novo trabalho da artista, resulta da utilização de resina como novo material de trabalho. Permite inclusive explorar o espaço expositivo além das paredes. Nessa nova fase, gravuras, recortes de gravura e gravuras impressas sobre gravura são imersas em uma espessa camada de resina, assumindo uma nova conformação. Além da bidimensionalidade.

Dispostas no chão da galeria sugerem, de longe, uma paisagem. E nos faz lembrar que, de perto, ninguém é mesmo normal.

Tons de branco, cinza, azul e marrom se fundem, misturam, complementam. Transpostos da natureza para a obra, e o espaço institucional da galeria, impregnam a superfície semi-translúcida (em degelo?) dos objetos e aludem também a uma prática recorrente à artista nesses últimos 15 anos: a troca de correspondências com familiares e amigos.

Pequenos gestos poéticos – A poética de Teresa Stengel se revela na caligrafia ligeira, no manuseio impreciso da resina, no modo como rasga o papel gravado e o conjuga a outros recortes. A sobreposição, o acúmulo, a subtração, o deslocamento, a convivência… O que é levado em conta pela artista em seu processo criativo  não deve ser descartado pelo espectador. Afinal, aí também reside a sua poética.

Mas, afinal, o que se pode ler nas entrelinhas? “São cartas de amor”, antecipa-se. “Dão conta da minha vida nesse novo país, de uma vida feita de escolhas”. Os mais curiosos poderão se perguntar: Por que não se lê a carta na íntegra? “Todo mundo guarda um segredo, principalmente o artista, que nunca se revela por inteiro…”

Teresa, que preserva o hábito de escrever cartas até hoje, diz que a prática persiste mesmo depois do e-mail. “O mundo é tão corrido… Diante da folha em branco podemos refletir sobre nossas vivências, o que fomos, somos e vamos nos tornar”, comenta. “É preciso escutar esse silêncio.”

Carimbos, autenticações mecânicas, fragmentos de endereço, códigos de endereçamento postal e idiomas – português e castelhano – podem nos ajudar com as primeiras coordenadas…

Olhar é bússola: É preciso perder-se de vez em quando. 


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