terça 30 Mai 2017

Paulo Pigmento: O alquimista das cores

paulo pigmento
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“… E aí partiu esse maluco maravilhoso, o Paulo Pigmento. Sobre as tintas e materiais todo mundo já sabe. Sobre a quantidade de viagens intergalácticas que compartilhei com esse cara quando eu estudava no Parque Lage, e ele marcava ponto lá, pintando (pintorzão de mão cheia!) e vendendo seus produtos, nem te conto”. Foi nesse tom a despedida do artista visual BobN àquele que é considerado por muitos um alquimista das tintas. Não conheci Paulo Pigmento, mas a vontade de tê-lo conhecido foi aumentando a medida em que via os comentários postados sobre ele.

A curiosidade jornalística me fez comentar na homenagem postada por BobN em sua página no facebook. De pronto, o artista Leonardo Videla contribuiu com uma passagem sobre o “Paulão”. Perguntei ao Google sobre o personagem e obtive como resposta o obituário do artista, assinado por Edson Brandão, reproduzido na íntegra:

Edson Brandão

Edson Brandão assina o obituário de Paulo Pigmento no portal BarbacenaMais

“O dia 13 de maio chegou cinzento e fechado. Dispensou cores e efeitos luminosos das auroras outonais. À tarde o sol mais uma vez se negou a despejar luzes e sombras. Foi assim, num dia cinza que o Paulo Roberto foi embora.

Ele, que era o alquimista das cores, que sem nenhuma modéstia se dizia um mestre dos segredos da decantação, da moagem de terras e substratos, que aos serem misturados a aglutinantes diversos geravam  cores impensáveis, se despediu da vida num dia de ordinário e exaustivo cinza-rotina.

Em Barbacena, ele era o Paulão. Com seu visual de hippie tardio, figura marcante dos cavaletes armados defronte às igrejas e prédios antigos, extraindo da cidade feiosa e descaracterizada, os poucos ângulos de charme e matizes nobres. No Rio de Janeiro, mais precisamente no Parque Lage, ele era o Paulinho “Pigmento”, um mercador das tintas e lápis com as cores mais surpreendentes, capazes de encantar gente influente das artes como Charles Watson, Katie Van Scherpenberg, Luiz Ernesto e outros artistas. Todos valorizavam os materiais fabricados por Paulinho, vendidos nas viagens frequentes que ele fazia ao Rio.

paulo pigmento

Menção no Jornal Correio da Serra

Foi na Escola de Artes Visuais – EAV- que Paulão tomou um banho de cultura artística e se libertou da pintura acadêmica, copista e comportada aprendida nas aulas particulares com a professora Ana Mangualde, ainda na juventude. Foi lá que ele aprendeu a dar peso e agressividade nas pinceladas capazes de fazer um quadro pesar tanto que os chassis das telas precisavam ser reforçados para suportar tanta tinta.

Certa vez, participou do talk show de Jô Soares.

Presa fácil por ser histriônico e afetado no falar, passou a maior tempo respondendo baboseiras perguntadas pelo gordo apresentador, mas ainda assim, conseguiu fazer ao vivo um pouco da tinta que lhe rendeu a fama no meio cultural carioca.

Nunca almejou a fama, nem o dinheiro para viver da sua arte. Não se preocupava com marketing pessoal e muito menos em bajular os possíveis compradores dos quadros que lotavam todas as paredes de seu apartamento-atelier. Alí, no seu ambiente de trabalho, demonstrava surpreendente organização das centenas de pincéis e espátulas rigorosamente organizados e limpos.

Como uma espécie de Tim Maia da pintura, era dono de um talento exuberante como artista, mas inconstante e inconsequente quando tinha que dar tratos de negócio ao seu ofício.

Vivia humildemente por opção e despojado das ambições e da arrogância dos medíocres, por isso, nem sempre era levado a sério como merecia.

Tive a chance de fazer a curadoria de uma exposição belíssima realizada por ele na antiga galeria da Estação Ferroviária e de dedicar-lhe um artigo em 2011.

Foi nessa ocasião que ele definiu sua concepção da vida e da arte:

Sei que neste mundo onde coisas e pessoas devem ter utilidade, a arte não serve para nada. Mas não me importo. Viver a arte plenamente é como cultivar um amor não correspondido. Paulo Pigmento

Em tempos cinzentos, suas cores, Paulão, são mais do que úteis. São indispensáveis…”

O que mais dizem sobre Paulo Pigmento

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Leonardo Videla – “Conheci Paulão antes de ser Paulo pigmento, no MAM. O cara veio com a cara e a coragem, deixando sua cidade, Barbacena, atrás de informação de arte. Se instalou ali, chegando a pernoitar nos bancos do Bloco Escola, e chamou a atenção de imediato. Eu era monitor e ficamos amigos. Em seguida ele conseguiu um quarto na Casa do Estudante, na Rui Barbosa. Até o Paulo entrar com os pigmentos levou um tempo. Fui até Barbacena conferir as primeiras levas de onde surgiram os pigmentos. A história do Paulo em Barbacena é incrível. Lembro de ter gostado e me surpreendido com suas pinturas paisagens, bem diferentes do que ele veio a desenvolver depois. Ele me disse: ‘O que me interessa é Emeric Marcier’. Eu falei: ‘Ah é ?’ ‘Sim, gosto muito dele, vamos até a casa dele’. A casa estava fechada, podemos pular o muro. E pulamos… Valeu PAULÃO!”

Bromélio Aechmeio – “Virou Pigmento, das cores mais LUXUOSAS… Pintor maravilhoso, fico feliz por ter convivido com ele!”

Luiz Paulo Rocha – “Conheci o Paulo também no Parque Lage. Ele andava sempre por aquele local e costumava aparecer em meio a uma aula, convidado por um professor, ou se apresentava pelos corredores, indicado por um ou outro artista, falando de seus bastões à oleo  – que era o produto que eu mais consumia – mas também os pigmentos naturais, que ele vendia em sacos, e que originou o seu apelido. Era muito falante, extrovertido – apesar de mineiro – e sempre achei de algum modo muito peculiar a sua voz, a sua entonação, um entonação aberta, rasgada, cantada, a propagandear sobre as excelencias daquelas cores, da materia prima que ele utilizava. Lembro que seus produtos eram provenientes de terras que pertenciam à sua familia, em Minas Gerais, e ele às vezes sumia por uns tempos mesmo, creio que em viagens para coletar e produzir os pigmentos e demais produtos. Um cara muito simpático e solícito. Uma perda.

Suely Farhi – “Eu me lembro bem dele lá no MAM, sempre com a visão apurada de quem degustava com os olhos a beleza que inventava…”

Beto Valente – “O Paulo foi o cara que me apresentou as cores , quando eu começava a busca da arte. As cores vieram com seus pigmentos e cola. Nunca comprei tinta. Eram os pigmentos do Paulo. E não era só isso. Não era uma compra somente de seu pó mágico . Eram as conversas, as prosas, o falar de Minas, Barbacena, da zona da Mata mineira onde tenho família. E com aquele jeito dele, meio de cinema italiano, gentil, com humor, direto…Era um papo “gerais” , geral. Confesso que há anos não o via embora esteja sentindo, agora, a notícia de sua partida. Escrevo olhando para um trabalho que fiz em 88, e vejo nele o azul forte, o ocre terral de seus pigmentos. Grande Paulo , vai deixar o céu mais divertido.

BobN – “Valeu Paulão! Você foi umas das pessoas mais importantes, intensas e inspiradas com quem convivi nessa jornada desde que comecei na arte”.

PaulaoEdson

Quando eu chego no Parque Lage não é qualquer pessoa que chega no Parque Lage. Parece um antigo mercador de Veneza, mas ele não vem de Constantinopla, ele vem de Barbacena, e em vez de trazer sedas e especiarias, ele traz tintas a óleo e pigmentos para os artistas. Então eu sempre fui venerado no Parque Lage, como uma divindade das tintas. Paulo Pigmento

2 Comments

  1. Escrevi uma crônica, cuja temática envolve a morte do pintor. E ao procurar sobre o mesmo no Google me deparei com este teu artigo. Muito bom! Registra-se assim a importância deste artista que eu via pelas ruas da cidade e que causava motivos de inspiração, mexericos e invejas por sua arte e ousadia! Abraços. Leonardo Lisbôa

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