Todos os caminhos levam à cor

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Carlos Krauz tem percorrido diferentes caminhos em busca de algo imprescindível às nossas vidas. Já nos anos 80, sua investigação acerca da cor  o levou a tomar partido de três projetores de slide e a produzir, artesanalmente, as “gelatinas” que usaria para colorir o espaço expositivo. As cores, primárias, iluminaram paredes, tetos e chão. O público também mudou de cor.

A cor, que naquela ocasião se apresentava efêmera, móvel, passível de ser ligada e desligada, já denotava sua (im)permanência, algo que volta a pontuar o trabalho do artista que, desta vez, especula sobre a cor em uma série de esculturas de parede, que Krauz apresenta desde o último dia 3 e até o próximo dia 30 na coletiva Conexões – Conexiones, em cartaz na Galeria Augusto Berni, no Consulado Geral da Argentina, em Botafogo.Assépticas por excelência, as pequenas esculturas de acrílico raptam a atenção do espectador quase que de imediato. Suas formas geométricas, assimétricas, obtidas pela sobreposição de duas chapas translúcidas coloridas, fixadas na parede por pinos cromados, nos levam ao exercício de enxergar o que está, o que não, e o que se origina.A poética desse trabalho – até então inédito no Rio – reside no espetacular fenômeno captado por nossos olhos, ou mesmo no modo como seus trabalhos intrigam nossa visão. Afinal, de que cor são? O olhar curioso é o mesmo que tenta identificar, na galeria, o que é real e o que é ilusório.

Ismael Pedrosa – Autor do fundamental Da cor à cor inexistente, Ismael Pedrosa é um balizador de toda e qualquer reflexão que se pretenda fazer acerca do tema. Impossível não nos remeter a ele, e à Cildo Meireles e seu “Desvio para o vermelho, quando diante de uma peça nesta cor entendemos que o título remete diretamente a este grande nome da arte conceitual brasileira.

Em Conexões – Conexiones, Krauz apresenta além das esculturas de parede  uma peça de chão, híbrido de escultura e objeto, com forte proposição instalativa (ao lado). O trabalho foi produzido em parceria com Luis Christello, que ocupa uma parede vizinha à de suas obras com Manguetronix, um enorme desenho digital, multicolorido, mas com fortes nuances de preto, que se espalha ao redor de uma pilastra.
Este não é o único trabalho colaborativo de Krauz. Ele apresenta simultaneamente em Porto Alegre um outro trabalho a quatro mãos, desta vez com Rogério Livi. O que se vê? Relógios vermelhos, quadrados, dispostos lado a lado, alinhados na parede, marcando diferentes (fusos) horários.É hora de sonhar.

Leia a seguir trechos de um bate-papo com o artista:
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Gilberto de Abreu – Que perguntas você tem conseguido responder sobre a cor? 

Carlos Krauz - Sobre a cor bem pouca coisa consigo responder que não seja pela vivência com ela. Ela é um processo de imersão que, em alguns trabalhos, no caso do uso da lâmina de acrólico, se comporta como uma camada. Em outros ela é uma sobreposição ou o efeito da sobreposição colorida proporcionada pelos múltiplos reflexos quando todas as “layers” estão sobrepostas.

Onde este trabalho tem te levado?

Este trabalho tem me conduzido a pensar o quanto o trabalho abre a discussão sobre transparência e opacidade. E a opacidade tanto pode ser trabalhada utillizando lâmina de acrólico jateado quanto sobrepondo uma grande quantidade de lâminas, até impossibilitar ou dificultar bastante ver através delas. Para mim, quando estou trabalhando com essas lâminas, testando e observando os comportamentos como transparência, saturação cromática, opacidade, etc, é como falar de nossos limites enquanto seres humanos dotados dos cinco sentidos mas cuja investigação e produção através dos materiais quer sempre chegar ao invisível; àquilo que transcende ou ultrapassa os materiais dos quais a obra é concebida.

A cor que não está, ou é invisível…

Acho muito divertido falar em invisibilidade, pois, se analisarmos o alcance de nossa visão no espectro dos comprimentos de ondas do ultravioleta ao infravermelho, nossos olhos vêm apenas uma pequena faixa dele. Nos vemos sempre dentro de um limite, ou de limites. Adoro pensar que, ao olhar para o céu, posso estar olhando uma estrela que, na verdade, já não existe mais, apenas sua luz viajando no espaço por centenas ou milhares de anos até chegar aos meus olhos.

Como eleger uma cor, em detrimento de outra? 

Eleger uma cor é sempre um exercício difícil. No caso das lâminas de acrílico é ainda mais, pois se trata de uma cor que pertence ao próprio corpo do material. Sobrepô-las, uma após a outra, ou escolher entre tantas abre sempre novas possibilidades de efeitos, de reflexos, de cores inusitadas que, em boa parte, nem se encontra nas próprias lâminas, mas emerge de seu encontro.

E como lidar com a revelação desses encontros improváveis?

É muito rico o universo da produção subjetiva. Nos cercamos de materiais, dispositivos, ferramentas… Sentamos, sofremos, exercitamos a contemplação pelo gesto do distanciamento. É imprescindível olhar à distância quando estou produzindo. Não apenas uma distância física em relação ao trabalho, mas também uma distância temporal… “esquecer” o trabalho quando ele se apresenta hostil … deixá-lo falar… em silêncio. Certa ocasião a artista mineira Patrícia Franca falou em uma palestra que tinha em seu ateliê uma peça elaborada uns dez anos antes. Aquela peça a inquietava cada vez que entrava no ateliê. Um belo dia ela começa a fazer um trabalho e depara-se com aquela peça e aproxima-a da atual. Aquela peça guardada no ateliê por dez anos estava “esperando” o seu momento.

Essa surpresa, como você a recebe?

Lidar com a surpresa é sempre prazeroso. Não gosto de me calcar no previsível, apesar de precisar planejar muitas vezes o que vou elaborar. Desde as minhas primeiras experiências com a cor, como o foi com o audiovisual COR-LUZ, na década de 80. Nesta obra já experimentava a riqueza de dividir o trabalho entre o “rigor” da investigação científica – ou seja, realmente chegar à síntese aditiva das cores conquistando as cores complementares e o branco no encontro das três no mesmo ponto- e trabalhar nas brechas abertas pela incerteza e pelo acaso. Pois o acaso ou os acidentes de percurso é que nos abrem perguntas e nos instigam a continuar buscando.

Qual é a cor da camisa que você está vestindo agora?

No momento branca, estampada… Aquela camisa que serve de pijama, sabe ? Mas normalmente gosto de cores fortes…

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