domingo 25 Jun 2017

“Quem consegue viver (n)o presente?”

Hersz abre
Ao Modo Quase Clássico é o nome da exposição que a artista carioca Claudia Hersz apresenta até 11 de maio na Galeria Jaime Portas Vila Seca, no Leblon.  A individual reúne trabalhos inéditos, em que a  orquestração de objetos (achados, procurados, escolhidos) e materiais (louça, madeira, plástico, tapeçaria, tecido), bem como imagens físicas (fotografia, gravura, ilustração) e imateriais (memória), nos leva a mergulhar – ou seria tomar um caldo? – no poético universo da artista.

Ceci n'est pas un Duchamp

Em seu processo criativo Claudia Hersz lança mão de coisas a nós reconhecíveis  e assim estabelece uma primeira aproximação com o espectador. Diante de algumas peças é possível reconhecer aquela velha cadeira de balanço da casa da avó, os  bibelôs que nossas mães e tias colecionavam para  “decorar” a sala de estar, e até mesmo algumas gravuras do corpo humano, típicas das enciclopédias que herdamos, ainda ma infância, de nossos pais.

Mas essa (talvez) seja a minha história. A de Claudia Hersz (talvez) seja outra…

O press release apresenta assim a artista e a exposição:

A artista recentemente premiada em São Paulo e com participação no último programa Rumos Artes Visuais transporta o público para esse lugar imaginário, onde o Rei Sol e a nova burguesia brindam com garrafas de cachaça nos jardins do Flamengo. Neste recorte idílico e surpreendente, Claudia resgata objetos e recria a História pós-moderna navegando por ondas “extra-vagantes”.
Faz todo sentido. Fiquei pensando numa artista que opera em seus trabalhos pequenas “pegadinhas”, articulando aqui e ali referências à história que pretende contar: seja ela real, fantasiosa, perversa, e certamente inerente à história da arte, direta e indiretamente.
No mundo virtual, é como se ela ligasse o computador, acessasse a Internet e navegasse nela – na vida – em busca de elementos para (re)contar sua história: um causo. Entrar no mundo de Hersz requer de nós uma certa (des)atenção ao tempo. Tempo esse que nos ajuda a detectar que nem tudo ali é verdade.
Nesse seu exercício de contadora, Hersz revisita o urinol, o primeiro ready-made de Marcel Duchamp, provoca piadas internas  em títulos (como também fazem Cildo Meireles e Vik Muniz), e casa alhos com bugalhos, de certo modo como também o fazem Fábio Carvalho e Jorge Barrão.
Revisitar o passado (história?) e (re)contar uma (mesma/outra?) estória pode parecer previsível diante de tantas recorrências, mas o que surpreende aqui é a nuance espetaculosa que os trabalhos adquirem no presente. Esse tempo que ninguém aguenta mais.
Rocking

Rocking – reinventando a paisagem

A visão do Curador

Por Marcelo Campos

A artista Claudia Hersz vivencia, em seus trabalhos, uma cisão na experiência do tempo: o uso de imagens, os modos de fazer, a escolha de objetos epocais, a invenção performática de personagens. Lança-se, assim, a uma pergunta: alguém consegue viver o presente? Quando estamos diante dos trabalhos de Hersz, o tempo não se apresenta em sincronicidade. Ao contrário, vemos referências estéticas e históricas se misturarem, desde uma simples cena de um telejornal a imagens frugais e românticas. A cisão acontece quando Claudia Hersz usa subterfúgios de dissimulação, finge a autenticidade dos elementos, emula a trama da tapeçaria com pinturas aplicadas e, sobretudo, coloca todos os acontecimentos como se pertencessem ao mesmo momento histórico.

Pensar num modo de fazer “à maneira de” já cria uma experiência de cisão do tempo. Karl Marx afirmava que a história só poderia ser vivida a primeira vez como tragédia e depois como farsa. Claudia Hersz se interessa por esse jogo, refazendo os fatos e mostrando que a tragédia, ao contrário do que supôs Marx, insiste em permanecer. No Renascimento italiano, o humanismo buscara as referências icônicas da Antiguidade; no século XIX, viveu-se o revival dos estilos. Coincidir com o tempo, citar o tempo, adiar o tempo. Mas, como desqualificar todas estas vontades revisionistas, denominado-as de superficiais, afirmando-as idiossincráticas? Refletimos, então, que não somos aderentes ao tempo, ao contrário, só conseguimos atravessá-lo.

Na série Scènes de la Vie aux Tropiques, Claudia Hersz se apropria de gobelins ordinários, produzindo uma vertigem de narrativas. O que poderia ser uma cena de parque europeu, um descanso sobre a relva, transforma-se nos jardins do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Misturados à coqueteria francesa, ao acento maneirista, à afetação burguesa, vemos crianças vendendo chicletes Adams, como encontramos, hoje, nos sinais de trânsito das grandes cidades. A história insiste em ser tragédia, contrariando o pai do capitalismo. Descansar sobre a relva cria sensações quase opostas, porém bastante relacionadas, no confronto entre o ócio burguês e o trabalho infantil.

Ao modo quase clássico

Ao modo quase clássico

De outro modo, nos trabalhos de Hersz, vemos um certo museísmo. Obras de outros artistas, como Duchamp e Cildo Meireles, são refeitas, elaboradas, algumas vezes em miniatura. Paródia e erotização. Fetiche diante dos objetos. Para Bataille, o fetichismo é uma espécie de substituição da castração. A museificação gera, muitas vezes, uma situação contraditória, o que parece destinado ao público, de acesso irrestrito, se particulariza no museu, perde o viço, torna-se objeto de mausoléu, acentuando a castração. O humor que Claudia Hersz dota aos objetos cria, de outro modo, uma desconstrução dos dispositivos de auratização, no mesmo instante em que os reauratiza, tornado-os souvenir. O consumo popular, o objeto pirateado é, também, um gesto de desconstrução do que estava distanciado, inacessível.

A pós-produção, nos termos de Bourriaud, é um modo como a arte contemporânea lida com o objeto pronto. Sobre isso, temos a herança de Duchamp, mas pós-produzir é diferente de se apropriar, o readymade, o que já está pronto, na pós-produção, também já está instaurado conceitualmente. Hersz usa a obra de arte, a louça barata, os bonecos da sorte, as caixas de música, tudo pós-produzido. E com tanta vinculação, onde ficam os conceitos? Isto esvazia o conteúdo dos objetos?

Giorgio Agamben afirma que será necessário proclamar a existência de um “homem sem conteúdo”, aquele cujo fazer “afunda suas raízes na essência alienada”. O artista, então, perde completamente a unidade imediata com sua produção, “se despedaça”, mas ganha no esforço de trazer à luz ou adensar a escuridão daquilo que toca a sua volição, do que o faz agir. Apropriar-se é um agir “como se”, ainda que a compreensão não esteja garantida.

O samba remove montanhas

O samba remove montanhas

Quando observamos a história da arte brasileira, percebemos que “fazer ao modo de” era recurso comum. Ismael Nery, por exemplo, exercita, na pintura, o vínculo surrealista que, muitas vezes, quase o confundia com artistas de sua deferência na Europa. Porém, “só a antropofagia nos une”, “fizemos Cristo nascer na Bahia ou em Belém do Pará”. Há, em nossa brasilidade, certo abuso no uso de referências, certa intimidade forçada. Tarsila do Amaral mistura crenças contraditórias, junta o Matisse fauvista, lírico, ao racionalismo da abstração geométrica.

Fazer “ao modo de” ainda gera alguma originalidade? A originalidade é um efeito de síntese, a imagem vem recauchutada, gasta, malhada. O maior artista é o DJ, afirma Nicolas Bourriaud. Vestir-se com produtos da alta costura (haute couture), ter em casa os mais caros tapetes, ou ser colecionador das mais inacessíveis obras-primas. Quando visitamos Claudia Hersz, “pisamos nos astros”, tropeçamos em Louise Bourgeois, tiramos Duchamp da cadeira para conseguirmos sentar, pedimos licença a Anna Bella Geiger. E tudo se configura para nos dar acesso. Tornamo-nos íntimos das celebridades. Hersz evidencia, ao modo quase clássico, a quebra do distanciamento e a inacessibilidade do desejo. Podemos pegar um duchampinho, como quem se aproxima de uma caixa de bombons. E, assim, louças baratas misturam-se a materiais, de fato, originais. Caixas, caixas e mais caixas. E nós exercitamos a porção tarada diante dos badulaques, colocamos a mão, porque a artista nos autoriza, ou melhor, nos faz cúmplices do delito.

Berceuse

Berceuse

Mas a quem se destina essa pós-produção? As crianças estão grandes, ninguém tem tempo de sentar para brincar, a velocidade da cidade parece negar a ludicidade, todos estão sérios. As regras morais, civilizatórias nos obrigam às boas maneiras, ao controle, ainda que doloroso, do grito.

O trabalho de Claudia Hersz não tem igual. Nada de pensarmos em cópia e original. Estamos diante dos efeitos de simulação. A isto podemos chamar de complexidade. Densa, Hersz lança mão de um jogo muito complexo, inventando dispositivos de entrar e sair da arte, chegando com a festa já começada, quando as cartas estão na mesa e o zênite da vida já raiou. O que fazer? Poderíamos tentar uma estratégia reflexiva, a vida serena, contemplativa, cool. Mas como conter a inconstância? Fazer ao modo quase clássico é se declarar insatisfeita. I can get no satisfaction, diria nossa tia, ao que a criança, o guru e o gauche responderiam: regras da arte, bons costumes? Gastei meu dia. Oh! meus amigos, meus inimigos, eu quero a feira de usados. Cinema, tobogã? Eu acho tudo isso um saco!

 

Claudia Hersz em “Ao Modo Quase Clássico”
Galeria Jaime Portas Vilaseca
Abertura: 26 de março de 2013, às 19h
Período: 27 de março até 11 de maio de 2013
Horário: De segunda a sexta, das 10h às 19h e sábados, das 10h às 14h.
Onde: Av. Ataulfo de Paiva, 1079 – Leblon

 

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