segunda 21 Ago 2017

Museus Fora do Eixo – Museu da Maré

palafita

É possível falar de uma favela no Rio de Janeiro sem falar de violência? Já estou falando. Me lancei esse desafio para o primeiro texto da série sobre museus ‘fora do eixo’, que o Supergiba abre com esta publicação. p.s.: o termo “fora do eixo” não é uma alusão ao movimento do Pablo Capilé, por favor. Trata sim de espaços culturais situados além do circuito oficial – e seguro? – do Rio de Janeiro. O primeiro museu escolhido é o Museu da Maré.

Como trabalhei lá, existe uma ligação afetiva forte. O Museu da Maré tem contradições e visões divergentes dentro da academia. Há quem diga que ele é um museu tradicional, e quem diga que ele é um museu social.Para a teoria existem diferenças, entretanto, há muito o que desfolhar para perceber o que acontece de tão novo nesse museu.

É mais um caso do óbvio e ululante, de Nelson Rodrigues.

Museu da Maré | Caminhando pela Avenida Brasil

Então, todo mundo vê, certo? Talvez. O que salta os olhos pode ofuscar. A instituição fica dentro do maior complexo de favelas do estado, o Complexo da Maré, que é composto por 17 comunidades. Está em processo de instalação da famosa Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), com direito a exército e todas as armas possíveis. Tá com tanque de guerra e tudo.

Por que alguém em sã consciência iria lá? Particularmente, eu, Camila, que trabalhei lá por nove meses, tive crises de ansiedade e até vivenciei um tiroteio entre traficantes e polícia militar com fuzil e caveirão. Isso fez eu me sentir uma sobrevivente e muito corajosa. Aí que eu percebi que o ‘Afeganistão’ não é tão longe daqui.

Pode ser um exagero, porque não estive no Afeganistão, mas tenho para mim que não deve ser tão diferente assim, exceto os mísseis. “Je suis Camila, je ne suis pas Charlie”. Ah sim, falava do museu. Este trata de muitos outros aspectos além da violência. Afinal, a vida é muito mais que isso.

Sua exposição de longa duração abriga 12 tempos: tempo da água, da casa, da migração, da resistência, do trabalho, da festa, da feira, da fé, do cotidiano, da criança, do medo, e o tempo do futuro. Foi concebida por Cláudia Rose, coordenadora do museu, e Mário Chagas, museólogo e professor da UNIRIO.

A apresentação deste museu está só no início, porque tem muito o que dizer sobre ele. Espero estar a altura do que é possível compreender. Por isso, nesse caso, falarei em primeira pessoa, como aqui. Serei claramente parcial e abusarei do meu ponto de vista. Aviso logo porque não poderei desconectar do que sinto e passei nesse lugar.

Aliás, se fosse para falar do espaço, recomendaria logo o site museus do rio. É ótimo e tem todas as informações necessárias.

Até breve! =)

Serviço: O Museu da Maré é um conjunto de ações voltadas para o registro, preservação e divulgação da história das comunidades da Maré na cidade do Rio de Janeiro, em seus diversos aspectos, sejam eles culturais, sociais ou econômicos. F ica na Avenida Guilherme Maxwell, 26, e fica aberto à visitação das 9h às 21h.  Mais informações pelo 21 2868-6748.

Nota da redaçãoE não espere o próximo texto ou mesmo a instalação da UPP para visitá-lo. O museu está numa luta contra a desapropriação. O imóvel onde está instalado o Museu foi cedido em comodato pelo Grupo Libra de Comércio Marítimo para o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré(CEASM), ONG gestora do Museu. O período de validade do contrato expirou no fim de 2013, e a empresa dona do imóvel informou que não havia mais interesse em renovar o comodato. No dia 10 de setembro, o Museu da Maré recebeu a notificação dando 90 dias para a desocupação do imóvel.

Se você quiser aderir à campanha pela preservação do espaço, siga este link.

Conhecendo o Museu da Maré

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