quarta 26 Abr 2017

O lixo e a arte contemporânea: uma coisa só?

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Uma instalação produzida com lâminas de papelão, folhas de jornal e migalhas de biscoito – em exposição na Sala Murat, em Bari, na Itália, em fevereiro deste ano – acabou no lixo por obra de uma faxineira pra lá de eficiente. O trabalho de arte contemporânea, avaliado em R$ 32 mil, pretendia fazer o público refletir acerca da paisagem e do meio ambiente. Conclusão: lugar de lixo é na lixeira.

Era um dia como outro qualquer para Dona Maria (nome fictício, já que o verdadeiro não foi divulgado pelo Daily Mirror, nem pela Folha de S. Paulo, que reproduziu). Vassoura em punho, adentrou o salão expositivo como que numa performance. E não teve dúvida, ao deparar-se com aquele amontoado de papelão, jornal e migalhas de biscoito emporcalhando a galeria: “Já pro lixo!”

A história é cômica, eu sei, mas você deve concordar comigo: é trágica também. Dona Maria – eu, você e todo mundo – não temos a menor obrigação  de identificar se isso ou aquilo é arte, ou não é lixo. Para isso existem donos de galeria, diretores de museus e centros culturais, críticos e curadores de arte, arte-educadores e, principalmente, os próprios artistas.

Ok, você pode achar que não: lâminas de papelão, folhas de jornal e migalhas de biscoito não fazem uma obra de arte. Alguém aí disse que “Essa Dona Maria sabe das coisas”? Não é bem assim…

beuysUm exemplo prático: Você saberia dizer  o que há por trás da performance de Joseph Beuys em que ele representa como explicar a pintura a uma lebre morta? Beuys passou horas sozinho na Galeria Schmela, em Düsseldorf, com o rosto coberto de mel e folhas de ouro, carregando nos braços uma lebre morta, a quem comentava detalhes sobre as obras expostas. Você sabe por quê?  

Pois é. A nossa visão em relação à arte muda significativamente  quando nos informamos (ou somos informados, por alguém) sobre os porquês de cada artista. Ir ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro para tirar um autorretrato (selfie todo mundo entende?) na frente do Ron Mueck não faz de ninguém alguém mais bacana.

Outra coisa: a exposição com obras do colecionador Sylvio Perlstein, no mesmo MAM, é beeeem mais bacana que aquele grupo de gigantes hiper-realistas. Mas quem sou eu pra dizer… Dez entre dez amigos que foram às exposições disseram o mesmo.

Voltando à história da instalação na lixeira, e de novo, não é bem assim. A julgar pelos comentários dos leitores do Daily Mirror – e de alguns colegas no Facebook, onde a notícia vem sendo compartilhada – Dona Maria é quem sabe das coisas. Conceitualmente falando, inclusive.

Repercussões no Mirror

Alex Lee sugeriu que o episódio poderia ter sido evitado caso os autores da intervenção – os nomes também foram poupados – não tivessem usado “lixo” como matéria-prima da obra de arte.

Barry Hainsworht foi irônico ao sugerir que os artistas resgatassem a obra da caçamba de lixo e criassem com ela uma outra instalação, ainda mais cara. “É tudo o que eu sempre disse. Os chamados artistas recebem milhões por algo que é, efetivamente, um lixo. Sempre que algum tolo pretensioso afirmar que ‘isso é arte’, desconfie”.

Nathalie Hicking contemporiza: “Sejamos honestos, é preciso repensar o que é arte. Eu não sou exatamente apaixonada por arte contemporânea: lixo, camas desfeitas, extintores de incêndio, nada disso foi pensado para estar em galerias. Particularmente, não vejo nenhum esforço nisso”. E questiona: “Posso despejar um pote de tinta vermelha numa tela branca e dizer que isso é a minha interpretação sobre como o comunismo sufoca a sociedade contemporânea na Mongólia? Isso custaria outros R$ 32 mil?”

Michelle Rainbow Heymans recebe a notícia em tom de comemoração. “Nunca mais faço faxina em casa. Com isso, estarei criando uma obra de arte de valor incalculável”. Louise Lawrence lança uma provocação: “E se eu esvaziasse um saco de Fandangos em cima da tela?”

Do alto de sua “expertise” em arte, Robert Scott vocifera: “Duvido que a moça da limpeza jogasse fora a Mona Lisa. Isso prova que a arte atual é tudo lixo, literal e figurativamente falando”.

O que é pior: o deslize da faxineira ou a derrapagem dos leitores? 

9780500290477_25418Sugestão de leitura

Why your five years old could not have done that – O livro escrito por Susie Hodge justifica, de modo didático e divertido, porque o seu filho de cinco anos de idade não poderia ser considerado um artista moderno. A autora toma como referência 100 obras de arte produzidas ao longo da história da arte, descrevendo a abordagem dos artistas, seus processos e técnicas; situando suas produções no contexto histórico e artístico.

No vídeo abaixo, a autora fala sobre a publicação, que traz, dentre outros, artistas como Louise Burgeois, Kiki Smith, Georg Baselitz, Pablo Picasso, Andy Warhol e, como não poderia deixar de ser, Marcel Duchamp.  A capa é um trabalho de Lucio Fontana.

 

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