sábado 24 Jun 2017

Mostra reúne livros, gravuras e objetos em Braille

Artista cria série de objetos com escritos em braile: "outras leituras".

Ao falar sobre a produção recente, a argentina residente no Rio de Janeiro  leva as mãos de encontro ao peito. Envolve o seio esquerdo como quem busca o compasso entre o que sente e o que vive. Teresa Stengel inaugura Handle with Care na Galeria Manuel Bandeira, da Associação Brasileira de Imprensa, no próximo dia 3, às 18h. A exposição reúne gravuras, livros de artista e objetos em Braille, produzidos especialmente para deficientes visuais.

O título da mostra, grafadoem inglês, sugere que tomemos a obra com cuidado. Vertido para o Braille, a linguagem dos deficientes visuais, é um convite ao toque àqueles que não conseguem enxergar.

Objeto, Teresa Stengel“Quis dar a todos a mesma oportunidade de absorverem a mensagem central da exposição. Teremos, assim, diferentes pontos-de-vista, que se complementam de acordo com as faculdades de cada um”.

Produzidos em resina acrílica, a partir do próprio seio da artista, que serviu de molde para as peças, os objetos escritos em braile emprestam volume à parede da galeria, em uma silenciosa cumplicidade com as demais obras da exposição: livros-objetos e gravuras, estas em grandes dimensões, e nas quais a palavra escrita impregna a obra com outros significados.

Gravuras, Teresa StengelCurador da Galeria Manuel Bandeira, Alexei Bueno ressalta a presença da palavra na obra da artista: “Se a visualidade tem uma presença maior em sua obra, a palavra nela está muito comumente presente, nos fragmentos verbais de que ela se utiliza em suas belas criações em resina acrílica, na reutilização de livros e demais reaproveitamentos gráficos, entre outras criações”.

Teresa Stengel (36)

Handle with Care – Exposição individual de Teresa Stengel. Gravuras, objetos e livros de artista. Curadoria: Bernardo Mosquera. Abertura: 03 de outubro, às 18H. Galeria Manuel Bandeira – Associação Brasileira de Imprensa (Av. Presidente Wilson, 231, Centro. Visitação: De segunda a sexta-feira, das 10 às 18H. Até 01 de novembro. Entrada franca.

 

 

 

Bernardo Mosqueira, curador.

Não há relação que seja fácil. Entre o dentro de mim e o dentro do outro há um abismo inegável, atraente e assombroso, e alguém já me disse que cultive a tranquilidade, pois é nessa distancia imponente que toda a sorte de vida não cessa de surgir. I said “handle with care”, e isso poderia ser algo entre “manuseie com cuidado”, “toque com cuidado”, “use com cuidado”, “manuseie com carinho” ou “me ame como mereço”.

Teresa Stengel (16)O título dessa exposição é o mesmo do maior dos trabalho dessa mostra individual da argentina Teresa Stengel no Rio de Janeiro. A frase é escrita em grande escala sobre a parede utilizando como base o sistema Braille, pelo qual deficientes visuais podem ler utilizando o tato para distinguir os caracteres do alfabeto marcados em combinações de pontos em alto relevo.

Nessa escrita agigantada, no lugar equivalente a cada um dos pontos, está presente um objeto de resina transparente na forma de um seio feminino em cuja superfície, mais uma vez, podemos ler, em Braille, handle with care. Dentro dos seios, vemos recortes de gravuras em papel de seda nos quais podemos ler trechos do poema Lava, escrita pelo poeta Tiago Salazar.

O mesmo texto percorre outros trabalhos da exposição. Os seios tem como molde o próprio seio esquerdo que, pulsando em real, veste o coração da artista com pele, músculo, gordura, glândula, tesão e mais.  Para entender o que dizem é preciso toca-los com cuidado e, talvez, conhecer os códigos necessários para isso.

Morando na capital fluminense há mais de uma décadas, a artista dedicou anos à elaboração de técnicas experimentais da gravura e expõe agora na Galeria Manuel Bandeira o resultado do encontro entre suas pesquisas sobre essa técnica e suas investigações sobre estar no mundo.

Teresa Stengel (14)

Em uma outra importante obra da mostra vemos, lado-a-lado, a matriz da gravura em cobre e, em papel, o resultado de seu toque. Essa é a grande chave dessa exposição que percebe, no gravar, uma grande metáfora sobre a vida. O cobre marca o papel como o mundo marca a pele, e nosso corpo não é nada além do lugar onde o mundo escreve em nós. Cada amor, cada prazer, cada dor, cada relação marca o corpo sem retorno – como a placa matriz no papel.

A mostra reúne e apresenta trabalhos que tratam de família, de carinho, de amor, de desejos e de medos. Sofre-se e goza-se, e não tem quando eu seja melhor do que apaixonado. I say Handle with care, meu amor, pois não há relação que seja fácil. Esse é um convite, um pedido e uma instrução: um desejo que se afirma pro mundo pra que esse, quando sair do abismo inegável para dentro de nós, nos marque o corpo da melhor maneira.

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